Tolerância, Justiça e Paz – 03/08/2015

No dia 3 de agosto de 2015 ocorreu mais uma Conversa de Justiça e Paz no Auditório Dom José Freire Falcão da Cúria Metropolitana, promovido pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília. Desta vez, o tema foi a tolerância, especialmente a religiosa e a racial. O objetivo era debater a situação no país e no DF quanto à convivência entre as diferenças em matéria de religião e de origem étnica.

JpegOs convidados para falar inicialmente foram a Pastora Romi Bencke (Secretária Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC) e o Prof. Carlos Alberto Santos de Paulo (Coordenador de Enfrentamento ao Racismo da Secretaria da Mulher, Igualdade Racial e Direitos Humanos do GDF e professor da Universidade Católica de Brasília). O tema se tornou especialmente importante nos últimos tempos devido a lamentáveis atos de violência motivados por preconceitos raciais e intolerância religiosa. Compuseram a mesa o Padre Carlos Henrique – vigário episcopal do Vicariato das Pastorais Sociais, representando o Arcebispo Dom Sérgio da Rocha – e o Presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília – José Marcio de Moura Silva. Estiveram presentes cerca de setenta pessoas.

Após a acolhida e palavras iniciais do Pe. Carlos Henrique, a primeira a expor foi a Pastora Romi Bencke. Apresentando dados sobre a diversidade religiosa brasileira, que vem se enriquecendo nos últimos tempos, ela sugeriu o conceito de “espiritualidade lúcida” para lidar melhor com a situação que se coloca no panorama religioso nacional atualmente. De um país quase que unicamente católico – pelo menos em termos nominais – até os anos 1970, o Brasil tem se tornado cada vez mais diverso quanto à afiliação religiosa. Não é só o crescimento do neopentecostalismo que salta aos olhos, mas também a visibilidade cada vez maior de comunidades espíritas e de matriz afro-brasileira, isso sem contar o fenômeno crescente nos últimos censos demográficos dos que se declaram “sem religião”. O fenômeno da diversidade religiosa em nosso país é uma realidade recente, mas já de grande influência na vida nacional, com repercussões não apenas em novas relações sociais que se estabelecem entre as pessoas, mas também no jogo de poder político. A chamada “bancada evangélica” tem se tornado uma força considerável no Congresso Nacional.

Essa nova diversidade religiosa brasileira pode ser uma oportunidade de enriquecimento nacional, mas tem gerado também problemas que merecem cuidado. Por um lado, vêm crescendo, ou ao menos vêm sendo mais noticiados, casos de ataques a grupos religiosos por parte de outros grupos religiosos. No momento atual, as vítimas são especialmente comunidades de religiões de origem afro-brasileira, que têm sofrido ataques não só verbais, mas também físicos e de violência contra seus espaços de convivência e culto. Esses ataques têm vindo principalmente de grupos neopentecostais. São ligados a esses grupos também os parlamentares da bancada evangélica, que têm – talvez com algumas honrosas exceções – se dedicado aos interesses particulares de suas próprias igrejas e não ao interesse público. Assim, além de uma situação de perigo para a ordem pública, com violência física sendo dirigida a pessoas por conta de suas crenças, temos uma ameaça à laicidade do Estado – entendida como a não discriminação de qualquer cidadão por conta de sua afiliação religiosa e a não intromissão do poder público em assuntos religiosos –, que é uma conquista da sociedade brasileira.

JpegDo ponto de vista teológico, uma espiritualidade lúcida vê na diversidade religiosa não um perigo para a integridade da fé cristã, mas uma oportunidade para as atitudes de humildade e amor ao próximo. Os grandes teólogos cristãos – Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino, entre outros – podem ter suas divergências, mas concordam que, por mais que a revelação nos mostre quem é Deus na pessoa de Jesus Cristo, nosso desconhecimento do divino é muito maior do que o que sabemos. O reconhecimento de nossa ignorância é uma lucidez que deve enriquecer nossa espiritualidade. Por outro lado, o mandamento de amor ao próximo se torna ainda mais concreto quando esse próximo é diferente de nós, como na parábola do samaritano. Enfim, a religião não deveria ser parte do problema da violência em nosso país, mas parte da solução.

A necessidade de diminuição da violência foi também assunto da exposição do Prof. Carlos Alberto de Paulo. Mas, para que consigamos isso precisamos reconhecer a principal origem histórica da assustadora violência que castiga o Brasil hoje: a escravidão. Nosso país viveu por quase quatrocentos anos uma situação na qual seres humanos eram reduzidos à condição de objetos de trabalho, sem direitos e sem consideração. Atrocidades físicas contra essas pessoas não eram sequer objeto de culpa ou remorso, pois elas não eram consideradas pessoas. Um período longo como esse (oitenta por cento de nossa história!) e a intensidade do mal que foi feito são algo que deixa marcas profundas no modo de ser nacional. Se não tomarmos consciência disso e não enfrentarmos com coragem nosso passado escravista, não teremos condição de nos livrarmos dele rumo a um país democrático, justo e pacífico.

A violência racial, infelizmente, é mais parte da vida nacional do que pensamos. O racismo brasileiro é velado e subterrâneo, disfarçado pelo mito da democracia racial. Quando vemos a população carcerária, predominantemente de pele escura, e quando vemos como são poucos os jovens negros e pardos que frequentam as melhores universidades brasileiras é que percebemos o quanto o Brasil é um país racista. O resultado é um enorme prejuízo para toda a nação, pois a perda de milhares de jovens – majoritariamente negros e pardos – por morte violenta todos os anos e a falta de oportunidade de educação e saúde para essas populações representam um freio para o desenvolvimento, a prosperidade e a paz em nosso país.

Após a exposição, houve um interessante debate, com grande participação da plateia. Especialmente notável foi a presença de adeptos de religiões afro-brasileiras e de participantes de movimentos sociais, como a CUT-DF. Estes últimos, inclusive, vieram relatar situações de violência no Distrito Federal – ligadas à ocupação de terra – e pediram a mediação da Comissão Justiça e Paz de Brasília.

O debate enfatizou a necessidade do diálogo e da compreensão mútua, que são valores do Evangelho, para a superação de toda violência e a instauração de uma sociedade mais justa e igualitária em nosso país. A conversa se encerrou com as palavras do Presidente da Comissão, José Márcio de Moura, que agradeceu a exposição dos convidados e a viva participação da plateia, além de fazer uma bela síntese do que foi discutido na noite. A diferença deve ser uma oportunidade de enriquecimento mútuo. Mais que apenas tolerar, é preciso respeitar outro, ver nele alguém que tem dignidade e valor. O respeito ao próximo é um princípio de todas as religiões.

Conheça o material usado pela Pastora Romi em sua apresentação:

EPIRITALIDADE LÚCIDA DESAFIO PARA O CONVIVIO

Veja a Conversa na íntegra: