Como escreve José Geraldo de Sousa Junior – 17/03/2017

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José Geraldo de Sousa Junior é professor da Faculdade de Direito e coordenador do projeto “Direito Achado na Rua” na Universidade de Brasília, onde também foi Reitor (2008-2012).

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Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
É difícil organizar uma rotina para quem combina a dupla condição de intelectual e de militante. O engajamento com os chamados do social e da política acabam por se fazerem intempestivos, urgentes, prioritários e desorganizam qualquer rotina. Em tempos críticos os apelos da ação política são a rotina. Ao tempo da ditadura, até pelos menos 1985, quando integrava a Comissão de Direitos Humanos da OAB-DF e a Comissão de Justiça e Paz da CNBB (Arquidiocese), não havia dia ou madrugada sem um pedido de socorro, uma mobilização para prevenir, defender ou garantir direitos em geral, pondo em risco a liberdade, a integridade ou a vida.
Hoje, com mais liberdade e mais democracia, embora sempre exigindo cuidados e atenção, essa condição crítica é atenuada, até porque mais compartilhada, está menos arriscada, mas não menos trabalhosa, porque o exercício político ficou universalizado e cotidiano, mas não reduziu o envolvimento com a assessoria – na universidade e nas organizações – para apoiar as causas dos movimentos sociais, criando direitos achados na rua ou resistindo às pretensões criminalizadoras contra a ação protagonista que intenta realizá-los.
Essa é a rotina e a disposição intelectual (orgânica) se inscreve nessa dinâmica e se organiza em esforço interpretativo do mundo e da realidade, no processo mesmo de agir para a mudança do mundo em direção a mais liberdade, mais democracia e mais justiça.
Então, refletir, fazer anotações, enunciar pontos de vista, anotar recortes do real em movimento, registrar direções para a circuição pensamento e ação, passa a ser um exercício que alinhava a vida em movimento. Leio e anoto sugestões, em peças de enunciação de direitos, em salas de espera de audiências, em trechos e em escalas de vôos entre bancas acadêmicas, auditórios, mesas-redondas, entrevistas, toda uma agenda que se presta a combinar essas duas disposições.
Aprendi a entrelaçar essas duas disposições e carrego sempre meu “caderno de anotações” e, sobretudo, uma “diretriz cerebral” para ativar a “caixa de pensamento” de modo que ela instale e classifique aqueles registros que possam ser recuperados por insights (lampejos) e sinapses futuras. Claro que o cuidado sutil de não enredamento a que nos adverte a anedótica situação vivida (não sei se verdade ou invenção, mas outros já a registraram), entre Einstein e Austregésilo de Athayde. Conta-se que o centenário presidente da Academia de Letras, ciceroneando o patrono da Teoria da Relatividade em sua visita ao Brasil em 1925, continuamente anotava em um caderninho fragmentos da conversação. Curioso, o grande físico perguntou-lhe: “o que tanto anota?”. “Boas ideias que a conversa suscita”. “Isso ocorre também com você”, indagou. “Não”, respondeu Einstein, “até hoje só tive uma boa ideia!”.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
Em geral, eu aproveito o dia. A escrita é o diário desse cotidiano. Se tenho um tema (preparar uma aula, escrever um artigo), uma exigência (fazer uma palestra, animar uma roda de conversa), continuar a redação de um livro ou responder a uma entrevista, deixo que o objetivo me incorpore e abro a razão e a sensibilidade para me deixar compenetrar, acolhendo as múltiplas possibilidades que me propõe. Percorro o dia, e tudo que se me oferece no seu transcurso me sinaliza para esse objetivo. Respiro o tema, abro a mente, especialmente se caminho e, melhor ainda se caminho num parque (como no Parque Olhos d’Água, próximo à minha casa). Eis que em um instante apreendo totalmente o tema, suas articulações, seu alcance. Então, sento-me e escrevo nos limites e nas condições de captura dos aspectos que cabem na escrita. Em seguida, refino, completo o achado, no recorte que serve a sua expressão no momento (mais imediato ou mais extenso).
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Dadas as condições de existência – intelectual e política – todos os dias, com momentos de concentração. Depende do chamado. Como agora, em plena manhã de domingo, escrevendo respostas para esta entrevista. Vou interromper para almoçar com a família, mas o tema completo da entrevista – que ficou alguns dias adormecida nos meandros cerebrais-sensitivos da minha racionalidade – sinto, já se entranhou em mim. Quando retome logo mais, só basta deixá-lo fluir. Pode ser que termine hoje, ou não. Há uma meta, mas não conforme a um “manual de uso”, apenas a certeza de que vou aproveitar o dia (carpe diem), e de que não há mais como interromper o processo da escrita, “o nosso feito do dia”, como diz Shakespeare no Henrique V.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
Eis que retorno do almoço, mas com uma parada,  para o que se poderia chamar de “digestão”. Vou até o CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) e revisito a exposição “Cícero Dias”. Mas já o faço depois de assistir o belo filme de Vladimir Carvalho “O Compadre de Picasso” tendo como argumento o pintor. Entendo um pouco mais o percurso do artista, ilustrador de Casa Grande e Senzala, que trilha caminhos do mundo, mas “um mundo que começava em Recife”, abrindo-lhe a criação artística para captar o humano, lembra Vladimir. [1] Na dupla narrativa, a da curadoria da exposição e a do argumento do filme, esse que Oswaldo de Andrade afirmou ser “o maior pintor brasileiro de todos os tempos”, transitando entre a sensibilidade do amor e a crueza da guerra, é então descoberto como o exilado da ditadura em seu País, e numa Europa sob o nazismo, cultiva a amizade dos que resistem, na arte e na poesia e contrabandeia para a Inglaterra o poema “Liberdade” de Élouard para servir de arma-panfleto lançada sobre a França ocupada e, assim, animar a Resistência.
No texto de Vladimir Carvalho, no volume de O Direito Achado na Rua, o cineasta (pág. 71) lembra seus encontros casuais com Roberto Lyra Filho – o criador da expressão O Direito Achado na Rua e, nos fundamentos, a concepção de Direito como Liberdade (tal como está na minha tese publicada: “O Direito como Liberdade. O Direito Achado na Rua”) para se ver levado “a imaginar que, de algum modo, o seu pensamento (de Roberto Lyra Filho) e os seus textos tiveram uma decidida influência no espírito daqueles que, naquela hora, propugnavam pelo restabelecimento da ordem e da democracia”.
Tudo isso me incita entre o almoço e o retorno a esta entrevista e me dou conta, diante da pergunta, que “o mover-se entre a pesquisa e a escrita” é, antes de tudo, uma disposição, um estar atento, um modo de olhar que surpreenda o que se exponha diante dos olhos, tal como o camponês de Saramago, que esculpe a madeira com a disposição de que a figura vai sair em face do talho, não porque ele a desenhou mentalmente, mas porque mentalmente ele estava disponível para reconhecê-la, no momento em que a madeira, na sua linguagem própria, a expressasse. Não sei se isso está escrito em seus livros, mas ouvi do próprio escritor, em seu discurso de agradecimento quando recebeu o honoris causa na UnB, em 1997 e descreveu o seu processo de escrita.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Em sucessivos ensaios de aproximação. Ao fim e ao cabo, um exercício disciplinado e obstinado apto a destravar, realizar em tempo certo e a fazer ousar, que acabou se constituindo uma espécie de método. Desenvolvi o gosto pelo “colunismo”, de modo a lançar em textos curtos enunciados experimentais para prevenir autoria e antecipar pontos de vista. Temas que retomo em maior profundidade e aos quais imprimo mais consistência e convicção. Há anos tenho exercitado, pois, a escrita de colunas (na Revista Direito e Avesso que fundei com Roberto Lyra Filho e vários colegas num movimento que se chamou Nova Escola Jurídica Brasileira – Nair, no Jornal da Ordem dos Advogados de Brasília, na Revista do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário e do Ministério Público no Distrito Federal, no Tablóide Observatório da Constituição e da Democracia, editado durante três anos em Brasília, na Rádio Cultura de Brasília, durante quatro anos, numa audição semanal, na Revista Darcy editada pela UnB nos quatro anos de meu reitorado, no projeto de Cartas do Reitor uma mensagem semanal que enviava aos docentes da UnB, nesse período, no Blog do Coletivo Diálogos Lyrianos). Algumas dessas colunas até renderam material para livro. [2]
A longo prazo, uma outra forma é a de revisitar os textos e expandi-los no diálogo com os auditórios, nos quais, em interlocução com os participantes de seminários, cursos, painéis, um texto inicial vai se encorpando, ampliando os seus elementos constitutivos, se transformando em seu próprio potencial narrativo-interpretativo até, em alguns casos, artigos ou ensaios se realizarem na forma de livros.
Uma boa experiência desse modo de trabalhar a escrita está no livro que escrevi em co-autoria com Antonio Escrivão Filho. [3] Inicialmente, texto-base para um curso sobre o tema em programa de especialização promovido pela ENAP (Escola Nacional de Administração Pública) por encomenda da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, esse texto foi publicado em livro editado pela Escola. [4] Antes disso, esse texto foi discutido em Seminário realizado em Belo Horizonte na Escola Dom Helder Câmara, e se beneficiou tematicamente do acréscimo problematizante do evento, sendo publicado como um capítulo (2) – Para um Debate Teórico-Conceitual e Político sobre os Direitos Humanos como Projeto de Sociedade, em livro editado após o evento. [5] Desde então, tanto eu como Escrivão Filho, em diferentes participações, no Brasil e no estrangeiro, nos propusemos uma escrita ampliativa, eu em azul, ele em encarnado, até à transformação do texto originário, reescrito no primeiro capítulo, até expandir-se num sumário de oito capítulos da obra afinal editada em 2015 e já várias vezes reimpressa. Nesse processo nos apoiamos reciprocamente, coordenamos nossos tempos subjetivos, discutimos nossas dificuldades, concertamos nossos entendimentos teóricos, conceituais e políticos, amplificamos os auditórios e os âmbitos para a interlocução a que nos propusemos.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Meus textos costumam sair em jorro. Prontos. É que eles amadurecem no arranjo mental que antecede a escrita. Isso não quer dizer que o jorro saia de uma vez, significa que liberada a fonte, ela como diz Amós a propósito da Justiça, “brota e jorra como riacho que não seca” (AM 5. 24). Posso até interromper, conter-me alguns dias, mas o jorro está ali incontido até expandir-se na eclusa que foi preparada (o livro), para acumular o seu fluxo. Nesse processo, aproveito a minha boa memória, sei onde estão as referências, as nota marginais de leituras, os excertos registrados, tudo enfim que pode ser recolhido para se fazer canal e leito por onde o riacho medra.
Sei que há escritores contidos, requintados, sovinas em relação aos seus escritos. Não os libertam enquanto não se convencem de sua exatidão. Flaubert demorou cinco anos para compor sua obra-prima Madame Bovary. Musil mais de 20 anos para escrever O Homem sem Qualidades e ainda assim a obra não foi finalizada. Meu avô quase nada publicou e escreveu muito. Quantas férias passei datilografando seus discursos de candidato a governador nos anos 1940 e trinta anos depois ele ainda os revisava por não considerá-los perfeitos para publicação. Lembro com respeito esse aspecto de sua relação com a escrita, sempre indo atrás da formidável expressão de seu pensamento analítico. [6] Seu grande amigo Luis da Câmara Cascudo o admoestava pelo preciosismo, ao dizer que “nasceu com a fidelidade ao livro e daí a sua história ser essencialmente a história de uma inteligência e não a odisséia de uma ambição humana. Escolheu a tarefa mais solitária e mais alta, aquela de poucos companheiros, a função intelectual que lhe daria, forçosamente, o isolamento pela incompreensão: o culto da Filosofia. Não o culto gráfico, a efabulação, o uso da dialética, a evidência impressa, mas a própria função filosófica…” [7]
Na minha forma de produzir segui sempre o conselho de meu Orientador Roberto Lyra Filho: escreve-se para comunicar, não para entesourar e é preciso dispor logo o tema à crítica, essa sim, a mais pertinente revisora. Entretanto, desde que vivenciei a experiência do agir coletivo, beneficio-me muito do companheirismo crítico dos coletivos de estudos e pesquisas, com os quais tenho exercitado a construção solidária da reflexão (Nova Escola Jurídica Brasileira – Nair, Coletivo Direito e Avesso, Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua, Coletivo Diálogos Lyrianos). Com eles, nos colóquios, nas orientações coletivas, na formulação de projetos, tenho usufruído da partilha criativa de pontos de vista que só enriquecem o trabalho individual de cada um que deles participam (“Adotamos o rótulo de Escolanão por arrogância, mas por humildade. Não impomos lições: procuramos juntos a verdade; não somos mestres, mas eternos estudantes, que nunca deixarão de sê-lo, para evitar que as nossas cabeças se tornem museu de ideologia e pantanal de subserviência… Escola, para nós, quer dizer fraternidade, entrosamento e comunhão de esforços, que se escoram reciprocamente e se reajustam à critica dos consócios… Reconhecemos, tão-só, que, na pesquisa e reflexão, há menos probabilidade do erro, quando empreendidas em trabalho de companheiros associados, formando um vivo entreposto de trocas intelectuais”. [8]
Mas não deixo de confiantemente e amigavelmente submeter todos os meus escritos à leitura prévia e diligente de minha esposa, a Professora Nair Heloisa Bicalho de Sousa, cujo olhar atento a constitui uma natural co-autora de tudo que melhor escrevo.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
Escrevo onde der e como puder, mas é claro, hoje, tudo é finalizado no computador. Não domino a tecnologia. Me sirvo bem dela na medida da necessidade de uso e acho-a valiosa para o processo da escrita.
Todavia, não penso a tecnologia apenas como um suporte para a escrita, mas também como um veículo de expressão. Tenho me valido frequentemente dos mídias para esse objetivo, me exercitando no roteirismo e na criação de argumentos, realizando documentários que servem ao objetivo da exposição de idéias.
Com o documentário O Direito Achado na Rua, originalmente exibido pela Rede Manchete de TV, experimentei o roteiro e o argumento, este inclusive, prêmio outorgado pelo 14o Festival de Cinema do Maranhão – o Guarnicê.
A experiência repetiu-se em outra edição documentária, relativa ao volume 7, da Série O Direito Achado na Rua: Introdução Crítica à Justiça de Transição na América Latina. Produzido pela UnB TV.
O documentário tem se mostrado um excelente instrumento pedagógico para difundir o argumento temático da proposta contida no livro que organiza o tema.
Isso tem permitido “brincar” com a tecnologia e a valer-se dela para celebrar o insubstituível suporte da escrita, lembrando mais uma vez Borges: “Fala-se do desaparecimento, ou da extinção do livro. Creio que isso é impossível. Dir-se-á: que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco? A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido; um disco é ouvido, igualmente, para ser esquecido – é algo mecânico e, portanto, frívolo. O livro é lido para eternizar a memória” (pág. 35)Com esse espírito é que “brinco” com os livros, como se vê nesse programa Iluminuras, da TV Justiça.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
Estamos falando de uma escrita que se tornou relevante a partir de traduzir um conjunto de temas que nela estão sempre presentes: Democracia, Cidadania, Justiça e Direito. Esses são os temas recorrentes dos meus escritos e, portanto, faço contínua circuição em torno deles. Esses temas estão vivos no cotidiano da vida social e política e sempre me interpelam. A inserção docente na vida ativa com compromisso estão sempre pedindo posicionamento e nutrindo o campo para cultivar as idéias. Note o título de um livro de ensaios que revela esse processo: Idéias para a Cidadania e para a Justiça. [9]
Mas as ideias são embaladas em arranjos interdisciplinares, combinando saberes, articulando múltiplas racionalidades. Tento apreendê-las no Carrefour dos modos de conhecer que se enlaçam sem se estranharem: ciência, arte, filosofia, psicologia, experiência mística. Assim, percorro simultaneamente todas essas formas ou modos de conhecer para abrigar e apreender expandido-as as idéias que fecundam e expressam os meus temas. Se desenvolvo o ensaio Teórico sobre o direito de morar, respondendo à mobilização social de sujeitos coletivos por novos direitos, eu busco construir uma categoria jurídica para reconhecimento desse direito achado na rua, tal como expresso em textos teóricos e principalmente em minha tese de doutorado [10]não descuido do ensaio literário, na prosa [11]ou na poesia [12]: “… Do teu direito humano/fizeste leito/para abrigar teus músculos proletários./No teu direito humano/amortalhaste os ossos/no suor de teus esforços/pelo direito de morar…”
Portanto, ciência, arte, filosofia, psicologia, religião (experiências místicas) ocupam um lugar equivalente para nutrir e abrigar as ideias que percorrem e animam os meus escritos.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de sua tese?
Eu diria que o mais significativo foi simplificar o texto, abandonando os parágrafos extensíssimos, com uma cascata de orações coordenadas, que dificultavam o caminho do sujeito até o objeto de sua ação. Penso que o exercício do colunismo facilitou esse processo. A necessidade de fazer caber no espaço circunscrito das colunas, de uma página e meia, de 3.500 ou de 4.000 caracteres, o enunciado completo de um ensaio, de uma crônica, levou a uma escrita mais direta, mais simples e comunicativa.
Valeu nisso a rica experiência dos três anos de edição do tablóide Constituição & Democracia, editado na Faculdade de Direito da UnB pelos Grupos de Pesquisa Sociedade, Tempo e Direito O Direito Achado na Rua. O editor contratado pelo projeto, o brilhante e experiente jornalista Luis Recena Grassi, “fechava” a edição mensal e supervisionava os nossos textos: eliminem tudo que termina em “mente”; trabalhem substantivamente e não adjetivamente; o jornalista, diferentemente do jurista, lança o essencial na abertura do texto para cativar o leitor e não perdê-lo ao longo de um texto que só se enfraquece e desperdiça o relevante deixado ao final no que pensa ser uma conclusão.
Lembro-me de uma ocasião, na tensa reunião de “fechamento” da edição, o cuidado do Recena em colocar para um dos nossos líderes de “retrancas” daquela edição, que fora obrigado a “cortar” o seu texto para fazê-lo caber no espaço temático. E o colega reagiu “bravo”, não porque o editor “ousara” cortar o seu texto, mas porque ele não conseguia identificar onde ele o fizera.
Termino com a questão sobre a minha tese, ou antes a minha dissertação. Nem penso mais em seu texto. O livro que dela resultou, hoje esgotado, é definitivamente uma obra cult de uma Editora também cult. Ele não pode ser tocado. É um texto que vale mais tanto quanto já não pode ser lido e é lembrado porque sabe-se que foi o campo pioneiro da proposição de noções, conceitos, categorias que recortaram um tempo político e também epistemológico.
E não é necessário mudar o que ficou escrito porque do que se trata é retomar o percurso em novas direções propondo questões novas nos textos futuros sugeridos para novos escritos.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Na verdade, o projeto a fazer já foi começado, que é dar sequência à Série O Direito Achado na Rua, com oito edições já publicadas, a caminho da edição nove. Este projeto galvaniza toda a minha atenção e proporciona uma ampla e complexa rede ou plataforma para o diálogo entre justiça, democracia, cidadania e direito. Enquanto tal, o projeto permite combinar conhecimento e ação política transformadora ao impulso de atividades de pesquisa, ensino e interlocução social. Ao mesmo tempo, integrar várias tecnologias, mediadas pela arte e pela ciência, num processo de comunicação no qual a escrita, o livro, têm lugar central, mas os mídias também, como já vimos linhas atrás.
Há nesse programa, portanto, projetos que fazem o meu gosto, mas ainda sequer pensados, ou iniciados. São as etapas futuras num grande sumário para problemas, temas, questões emergentes ainda não visualizadas, mas que respondem às expectativas que o presente já enuncia, no acumulado das edições recentes do Projeto O Direito Achado na Rua.
Para sua concretização me animo com a leitura sim, de edições que ainda não existem, mas que podem ser imaginadas. Algo que represente mergulhar na materialidade pré-existente ao livro ainda não produzido, que venha a ser, como diz Borges, “uma extensão da memória e da imaginação”. [13]
Penso em algo como o que nos proporcionou a querida colega Bárbara Freitag, a notável socióloga, grande amiga de Habermas. Pedi a Bárbara, que tem um pequeno texto seminal em O Direito Achado na Rua, vol. 1 – Introdução Crítica ao Direito (A Norma Social: Gênese e Conscientização), que elaborasse para a revista da Faculdade de Direito da UnB – Notícia do Direito Brasileiro, uma resenha de Habermas.
Com a sua vocação para se armar como ponte no diálogo entre culturas [14], ela me ofereceu não uma, mas resenhas de duas obras de Habermas. Uma delas Facticidade e Validade. Contribuições para uma Teoria Discursiva do Direito e do Estado de Direito Democrático [15] e a outra Além das Montanhas [16]Esta última, título anunciado pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung, como uma “obra-prima”, que seria o primeiro romance de Habermas. Um romance de Habermas? Eis a obra objeto da resenha de Bárbara, um livro que nunca existiu e que eu bem gostaria de ter lido.
Assim como gostaria de ter lido os três livros que o personagem Alexander Hartdegen (“O Viajante do Tempo”) do livro A Máquina do Tempo de H. G. Wells, retira da estante quando decide retornar ao futuro para resgatar o humano que se desconstituiu no colapso civilizatório a que nos legou o flagelo das guerras (“se houver uma terceira guerra mundial, a quarta será travada com arcos e flechas”, dizia Wells). O livro, na versão cinematográfica de 1960, dirigida por George Pal e tendo Rod Taylor no papel principal (cito o filme para fazer jus ao comentário de Garcia Marques sobre o imagético de nossa cultura – “leu a Crítica da Razão Pura de Kant? Não, mas vi o filme”) sugere que há obras que servem para reorientar o percurso do humano. Quais seriam esses três livros? A narrativa não diz. Esses livros eu ainda lerei e me disponho a deles redigir resenhas.

[1] A Resistência em Brasília – um breve testemunho. SOUSA JUNIOR, José Geraldo de et al., org. O Direito Achado na Rua vol. 7 – Introdução Critica à Justiça de Transição na América Latina. Brasília: CEAD/UnB, 2015, págs. 68-71.
[2] Idéias para a Cidadania e para a Justiça. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2008.
[3] Para um Debate Teórico-Conceitual e Político sobre os Direitos Humanos. Belo Horizonte: Editora D’Plácido, 2015.
[4] DELGADO, Ana Luiza de Menezes et. al., org. Gestão de Políticas Públicas de Direitos Humanos – Coletânea. Brasília: Enap, 2016.
[5] PINTO, João Batista Moreira e SOUZA, Eron Geraldo de, orgs. Os Direitos Humanos como um Projeto de Sociedade: desafios para as dimensões política, socioeconômica, ética, cultural, jurídica e socioambiental. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Juris, 2016.
[6] SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Floriano Cavalcanti de Albuquerque, Um Juiz À Frente de Seu Tempo. In ALBUQUERQUE, Marco Aurélio da Câmara Cavalcanti de. Desembargador Floriano Cavalcanti de Albuquerque e sua Brilhante Trajetória de Vida. Natal: Infinitaimagem, 2013, págs. 329-338.
[7] CASCUDO, Luís da Câmara. Floriano Cavalcanti, sua evolução intelectual e filosófica. Natal: Separata da Revista da Academia Norte-Riograndense de Letras, 1955, pág. 35.
[8] LYRA FILHO, Roberto. A Nova Escola Jurídica Brasileira. Direito e Avesso. Boletim da Nova Escola Jurídica Brasileira. Brasília: Publicação Semestral da Editora Nair Ltda – ano I – n. 1 – 1982.
[9] Idéias para a Cidadania e para a Justiça. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2008.
[10] O Direito como Liberdade. O Direito Achado na Rua. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2011.
[11] No Jardim da Faculdade de Direito da UnB. In Ideias para a Cidadania e para a Justiça. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2008, págs. 85-86.
[12] Direito de Moradia. In Antologia Poética Vinicius de Moraes. São Paulo: Grupo Artístico e Cultural Vinicius de Moraes. Edição Independente, 1983.
[13] BORGES, Jorge Luis. O Livro. São Paulo: Edusp 1000 Títulos, 2008.
[14] SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Moral e Direito: de Antígona a Barbara Freitag. In ROUANET, Sérgio Paulo, SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de, COELHO, Maria Francisca Pinheiro, orgs., Itinerários de Barbara Freitag. Brasília: Editora UnB, 2005.
[15] Notícia do Direito Brasileiro, Nova Série, n. 7. Brasília: UnB/Faculdade de Direito, 2000, págs. 444-454.
[16] Notícia do Direito Brasileiro, Nova Série, n. 7. Brasília: UnB/Faculdade de Direito, 2000, págs. 439-443.